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Brasil aperfeiçoa técnica de esferas plásticas para combater tumores

O conhecimento para a produção de microesferas plásticas usadas no tratamento de tumores vascularizados, incluindo os cancerígenos, não é mais segredo para o Brasil. Além de desenvolver uma tecnologia para a fabricação das partículas, uma equipe do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ) fez ainda melhor: descobriu uma forma de aprimorá-las. Já testado em humanos, o produto está protegido por patente no Brasil e no exterior e só depende agora da aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para começar a ser manufaturado.

Desenvolvida há dois anos no Laboratório de Modelagem, Simulação e Controle de Processos da Coppe, a partícula, invisível a olho nu, é usada nos processos de embolização, uma técnica através da qual um produto - neste caso, as microesferas - é injetado no organismo com o objetivo de obstruir as veias que levam o sangue até o tumor.

Sem a vascularização, o tecido perde os nutrientes necessários para sua manutenção. No caso dos miomas, tumores benignos que se formam no útero, o tratamento pode causar um atrofiamento capaz de impedir a remoção do órgão.

Segundo o engenheiro químico da Coppe José Carlos Pinto, coordenador do grupo de seis pessoas que desenvolveu o polímero sintético, o produto tem características importantes que facilitam sua utilização, como a superfície regular e a forma esférica (veja no quadro ao lado). "A nossa tem uma geometria diferente das partículas disponíveis no mercado, permitindo o entupimento total do vaso sanguíneo", observou. Pinto explica que as microesferas existentes hoje têm um formato de flocos, que pode, eventualmente, permitir a passagem do sangue, interferindo na qualidade da embolização.

Outro grande diferencial do produto nacional é a estrutura casca-núcleo (núcleo mais espesso e parte exterior porosa e absorvente), que, além de permitir uma maior aderência das partículas no interior dos vasos sanguíneos, impede a sua aglomeração dentro do cateter, tubo plástico por meio do qual as microesferas são inseridas no organismo. "A casca-núcleo também faz com que ele seja biocompatível. A parte externa é feita de poliálcool vinílico e o núcleo, de poliacetato de vinila", detalhou.

O produto foi desenvolvido a partir de um pedido apresentado por uma empresa brasileira. "Eles lançaram um desafio e topamos. Uma unidade de fabricação está sendo construída em Goiânia", conta José Carlos Pinto. O investimento, segundo ele, foi de R$ 100 mil, pagos pela empresa.

Ainda não é possível, no entanto, saber se o produto nacional será mais barato que o importado, cujo frasco custa, em média, R$ 1.500. São usados, normalmente, quatro frascos num tratamento.

RESULTADOS Responsável pelos testes em animais e em humanos, o cirurgião vascular Gaudêncio Espinosa, da UFRJ, observou que as partículas nacionais conseguiram bloquear a circulação dentro dos vasos sanguíneos em 100% dos casos. "A eficiência foi total. O material importado, assim como o nosso, consegue impedir a chegada do sangue ao tumor. Mas no caso da tecnologia nacional, a embolização acaba sendo mais fácil."

Segundo ele, um grupo de 19 mulheres passou pelos testes com o produto. Destas, 15 apresentavam tumores benignos, sendo 12 delas, miomas. As outras tinham câncer no rim ou na região cervical. "Em todos eles, a embolização foi integral. Porém, no caso dos tumores malignos, o tratamento não é curativo. Serve para facilitar a cirurgia para a remoção da área afetada, já que bloqueia a circulação do sangue na região", explicou Espinosa.

Médica das pacientes com mioma que experimentaram o novo produto, a ginecologista Juraci Ghiaroni, da UFRJ, relatou que as mulheres que tinham indicação de histerectomia (remoção do útero) não precisaram mais passar pelo procedimento após a embolização. "É importante ressaltar que o mioma, na grande maioria dos casos, não requer nem tratamento, pois acaba diminuindo de tamanho após a menopausa. Mas há caso também no qual a cirurgia para retirada do útero pode ser necessária."

Coordenador da Pesquisa Clínica do Instituto Nacional do Câncer (Inca), Carlos Gil destacou a importância do produto desenvolvido pela Coppe. "A embolização não é inovadora, mas a composição dessas partículas, ao que parece, é. Hoje em dia, a técnica tem várias aplicações. Pode ser usada, por exemplo, numa pessoa que tenha metástase no fígado e não possa fazer cirurgia. Não é curativo, mas você consegue dar uma sobrevida ao paciente", observou, festejando o invento. "No Brasil, praticamente não geramos patente. Por isso, embora a técnica utilizada já seja conhecida, eles merecem aplausos."

Professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), o neurocirurgião Clóvis Orlando da Fonseca também louvou o desenvolvimento das partículas. "É importante o surgimento de terapias menos invasivas."

 

Autor: Karine Rodrigues
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/07/2006, Vida&, p. A22