EndoPelvic - Centro Multidisciplinar de Endometriose
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Endometriose e Auto-estima

A Endometriose tem registado, nos últimos anos, um aumento progressivo. A sua incidência não só tem ocorrido, cada vez mais, em mulheres jovens, mas também se tem manifestado no incremento dos casos mais agressivos da doença. Estamos a falar de uma doença que leva, em média, 8 anos até ser devidamente diagnosticada. Desesperada por ter que lidar diariamente com a dor que, muitas vezes, não é compreendida pelos familiares, amigos e profissionais de saúde, que a qualificam como algo do foro psíquico, a mulher tende a isolar-se, a não falar do que sente e a questionar-se a si própria.

Ao receber finalmente o diagnóstico, a mulher com Endometriose sente quase uma relação de amor-ódio com a doença e com o seu corpo. Se, por um lado, poderá haver uma espécie de alívio por os sintomas finalmente terem um nome, por outro é o enfrentar o facto de a Endometriose ser uma doença crónica, sem cura, que exige um conjunto de procedimentos médicos que incluem exames, consultas, medicamentos hormonais e, em muitos casos, uma ou mais cirurgias.

Embora esta possa ser uma doença assintomática, revela-se, na maioria das vezes, através de dor, que surge principalmente associada à menstruação, micção, defecção e às relações sexuais. Visto que a dor é o principal sintoma da doença e que a infertilidade é, em muitos casos, uma consequência, a mulher passa por períodos onde vê a sua vida individual, conjugal e profissional afetada de forma drástica. Não raras vezes, a experiência da infertilidade pode gerar culpa, vergonha e produzir um estigma social, levando ao isolamento da mulher e a uma acentuada queda na sua autoestima. Para além de tudo isto, e uma vez que a portadora de Endometriose sofre uma real perda de qualidade de vida, os sintomas da doença acarretam igualmente uma privação das suas atividades pessoais e sociais. Neste contexto, a vida da mulher poderá ficar marcada por sentimentos de inferioridade.

Em muitas das mulheres com Endometriose, o conceito de imagem corporal é afetado por diversos motivos. Um desses motivos é o facto de grande parte das mulheres portadoras da doença apresentarem distensão pélvica. Muitas vezes, esta patologia transmite, a quem observa a mulher, a ideia errada de uma gravidez. Ora, quando paralelamente a esta patologia está associada a infertilidade torna-se extremamente difícil para a mulher com Endometriose lidar com as sucessivas questões que lhe possam ser colocadas, por familiares, amigos ou até estranhos, sobre uma possível gravidez.

Outro dos motivos está relacionado com o possível aumento de peso. Este pode ser provocado quer pela ingestão de medicamentos à base de hormonas, quer pelas limitações à atividade física impostas pela doença. Por último, nas formas mais agressivas da doença, a mulher é submetida à cirurgia com o intuito de obter qualidade de vida e eliminar o máximo possível os vestígios da Endometriose. Apesar de, na maioria das vezes, a cirurgia melhorar os sintomas, todo o processo que a envolve influencia, de um modo geral, a auto-imagem da mulher, sendo esta realidade mais sentida pelas portadoras que se vêm obrigadas a realizar uma histerectomia total ou parcial.

A insatisfação da mulher com o seu próprio corpo poderá ter consequências na sua vida sexual, como sejam a falta de líbido, frustração, vergonha, medo de rejeição e stress, que no limite podem levar à rutura do relacionamento. De salientar ainda que um dos sintomas da Endometriose é a dispareunia (dor durante a relação sexual) que, aliada a uma baixa auto-estima, pode dificultar ainda mais todo o processo.

Se pensarmos que existem em todo o mundo cerca de 176 milhões de mulheres com Endometriose, que de uma maneira ou de outra vivenciam os sentimentos referidos anteriormente, não é difícil concluir que urge a necessidade de a mulher se focar em si própria e procurar gerir a panóplia de sentimentos negativos que com alguma facilidade e frequência surgem. Assim, a portadora de Endometriose deve em primeiro lugar conhecer e refletir sobre a doença, quer nas suas manifestações físicas, quer psicológicas e “trabalhar” para promover a sua auto-aceitação. Dado este passo, é necessário haver uma valorização pessoal, através de atividades que promovam o bem-estar nas várias vertentes, como sejam o casamento, família, trabalho, lazer, etc., procurando aumentar a auto-estima e desenvolvendo a convicção de que é capaz e merecedora da felicidade. Em suma, a mulher com Endometriose terá de aprender a cultivar a resiliência, ou seja em cada dia procurar superar os obstáculos e as situações adversas que a doença lhe impõe, para que possa desfrutar ao máximo da sua vida.

Nem sempre é fácil, haverá sempre dias mais cinzentos do que outros, haverá sempre dias em que as lágrimas serão em maior quantidade do que os sorrisos, mas é possível. É possível encontrar algo de positivo em cada um dos nossos dias. É possível sorrir todos os dias e é possível ser feliz com uma doença crónica!

Referências:

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Trindade Z., Enumo S. (2001) Representações sociais de infertilidade feminina entre mulheres casadas e solteiras. Psicologia, Saúde e Doença vol.2 nº2.

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Banden N. (2008) Auto-estima: Como aprender a gostar de si mesmo.

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Fonte: http://mulherendo.pt/endometriose-e-auto-estima/