Saúde tem gênero? Março Amarelo conscientiza sobre endometriose, uma das principais causas de ausência de mulheres no trabalho
Materia publicada no Jornal Tribuna de Minas de Juiz de Fora - em 29/03/2026
Coluna Saúde
Contribuição do Dr. Luciano Furtado

Março, popularmente conhecido como mês das mulheres, também é dedicado à conscientização sobre doenças que atingem principalmente – ou apenas – as mulheres. Este é o caso da endometriose, uma doença inflamatória crônica caracterizada pelo retorno do tecido do útero, que deveria ser expelido na menstruação, para a cavidade abdominal. Este tecido causa aderências que se tornam focos de dor.
Apesar de ser uma doença benigna, isto é, que não causa morte, a endometriose atinge entre 5 a 15% das mulheres em idade reprodutiva, de acordo com o Ministério da Saúde. De acordo com o médico ginecologista Luciano Furtado, especialista no tratamento da endometriose, a doença é a principal responsável pelo absenteísmo, isto é, pelas faltas ao trabalho e às aulas, bem como pelo presenteísmo, ou seja, a improdutividade nos compromissos, apesar da presença física da paciente, em todo o mundo.
Este foi o caso de Vivia Lima, que demorou 17 anos para conseguir o diagnóstico da doença. A jornalista conta que trabalhava na loja da mãe quando adolescente, mas, durante seu período menstrual, precisava tomar remédios e se trancar no banheiro com a luz apagada por horas para conseguir lidar com as cólicas que sentia.
Outro sintoma que faz com que as mulheres procurem ajuda médica e diagnostiquem a doença é a infertilidade. A nutricionista Renata Fajardo conta que procurou um ginecologista após três perdas gestacionais, quando recebeu a indicação para realizar uma cirurgia de retirada dos focos da endometriose.
Além das cólicas menstruais incapacitantes e da infertilidade, outros sintomas da doença são dor pélvica crônica, dor na relação sexual – principalmente de profundidade –, queixas intestinais e urinárias de repetição, distensão abdominal e queixas emocionais. Fernanda Polisseni, médica ginecologista e coordenadora do projeto de extensão Escuta Minha Dor, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), destaca que a endometriose também afeta as relações sociais das pacientes, que, durante o ciclo menstrual, por vezes não conseguem ir ao trabalho ou encontrar amigos, ter relações sexuais com a parceria e até mesmo ter um sono de qualidade.
Dor que não sai no jornal
Quando descobriu que vivia com endometriose, aos 31 anos, Vivia Lima já tinha passado parte de sua carreira se equilibrando entre a dor incapacitante e as cobranças por entregas nas redações jornalísticas em que trabalhava. Para ela, os remédios para a dor deixaram de fazer efeito cedo: “era como se eu tivesse tomando água com açúcar, eu não sentia melhora nenhuma da dor”.
A rotina de trabalho também era impactada pela doença. “Eu lembro que eu ficava debruçada no computador, com a barriga em cima da perna, muito dobrada escrevendo coisas e os meus editores me cobrando normal […]. Eu tava aí para trabalhar, mas era um período que eu não conseguia render, fora a dor de as vezes ter que deitar no chão”, relembra.
Vivia recorda que procurou ajuda médica pela primeira vez aos 20 anos e que a recomendação era para tomar anticoncepcionais. No entanto, para ela, a pílula significava mudanças repentinas de humor e alterações bruscas no seu peso. E a dor? Continuava sem melhoras.
Desse momento em diante, Vivia visitou oito médicos. Ela chegou a ouvir que não havia porque se preocupar, já que o útero dela era “lindo”. “Eu pensava assim, que útero ‘lindo’ é esse, que eu sinto essa dor? A minha sensação era que meu útero dava cambalhota, sabe?”, relembra.
A jornalista conta que, quando recebeu o diagnóstico, passava cerca de 20 dias menstruada durante o mês. A tontura e os desmaios já tinham se tornado visitas frequentes: “[nestes dias] eu não conseguia enxergar as pessoas de forma nítida, elas pareciam uma pintura em óleo para mim”.
Uma ressonância magnética da pelve depois, o exame que permitiu a Vivia a compreensão e tratamento correto da sua dor, hoje ela leva uma vida normal. Treino de segunda a sexta, presença em compromissos sociais, trabalho com mais leveza e nada de se trancar no banheiro mais.
Da dor física aos planos de vida: impactos da endometriose
Para a nutricionista Renata Fajardo, apesar das cólicas menstruais intensas causadas pela endometriose, o seu diagnóstico só foi possível quando a doença se esbarrou com seu projeto de vida: a vontade de ser mãe. Após três perdas gestacionais, era hora de procurar um médico especialista.
Hoje, com uma filha de 14 anos, Renata conta “eu tinha focos na bexiga, no intestino e no útero… Eu inclusive tive que tirar, né, o meu útero. Então, assim, eu descobri por conta de dor intensa e de abortos repetitivos”. Para ela, a cirurgia foi não só a solução para as dores, como também o fim dos focos da doença.
Uma dor física que se torna também emocional
“[a endometriose] também é uma doença que atinge nosso emocional, né? Porque as vezes a gente reclama de dor e não é bem entendida pela sociedade. A gente, às vezes, quer vestir uma roupa e tá com muita distensão abdominal e a roupa não cabe na gente naquele momento… Então assim, a doença é física porque ela dói, mas é uma doença emocional que incapacita a gente de estar em uma rede social, de amigos, porque você não quer estar ali para reclamar”, desabafa Renata.
Vivia concorda. A jornalista aponta que, por não ser uma dor visível, muitas vezes a endometriose é descredibilizada: “por não ser um problema que sangra visualmente, como quebrar um braço e uma perna, as pessoas não entendem o tamanho daquilo”. Ela continua: “eu ouvi de algumas médicas que essa minha dor era psicológica, porque meu útero era lindo. E eu até acreditava. ‘Será que eu tô inventando então, eu tô criando uma dor que não existe?’ Mas não, depois que a gente descobriu […] eu pude ter uma qualidade de vida muito melhor”
“Quando a gente começa, né, com as dores, muitas vezes a gente já vem com uma história de que a cólica dói mesmo e aí a gente vai ouvindo isso tanto que fica sem graças, né, de ficar falando muito sobre isso”, relembra Renata.
A saúde da mulher é negligenciada?
Quando questionados sobre a relação entre a falta de investimentos nos estudos sobre a endometriose e o fato de ser uma doença que afeta apenas mulheres, nossos entrevistados se dividem. Para Vivia, “a gente ainda vive numa sociedade muito machista. Talvez, se [a endometriose] atingisse os homens, pode ser que já tivesse um olhar um pouco mais cuidadoso em relação a isso”.
A médica Fernanda Polisseni concorda: “esse é um dado muito levantado atualmente né? Como as doenças que afetam apenas as mulheres são menos estudadas ou demoram mais tempo pra receberem a atenção que merecem, né? Acho que até o histórico de valorizar a queixa é uma questão negligenciada, por esse histórico de a mulher achar que tem que tolerar a dor”.
Renata, por sua vez, atribui o histórico de diagnóstico tardio da endometriose à desinformação, tanto de médicos quanto das mulheres, que por vezes sequer sabem que podem ter a doença. Para Luciano Furtado, a falta de estudos e investimentos para pesquisar a condição deve-se ao fato de que a endometriose é uma doença benigna: “como é uma doença que não mata, é uma doença que às vezes não tem tanto interesse do poder público, entendeu? Dos governos, do pessoal que manda, que tem o dinheiro. Então, é muito difícil ainda você despontar no tratamento, na prevenção da endometriose. Mas tem tido, sim, bastante estudo, sabe?”
Mas independentemente das questões de gênero, é possível pensar em avanços para garantir mais tranquilidade para as pessoas com endometriose. No Brasil, um exemplo é o Projeto de Lei 1069/2023, de autoria da Dayany Bittencourt (União/CE). O PL, que aguarda apreciação do Senado, institui diretrizes básicas para melhoria da saúde das mulheres com endometriose e inclui a doença com manifestação incapacitante no rol de doenças que independe de carência para a concessão de auxílio-doença e de aposentadoria por invalidez.
Já em Juiz de Fora, destaca-se o projeto de extensão Escuta Minha Dor, coordenado pela professora Fernanda Polisseni. O projeto tem como objetivo disseminar informações sobre a doença pelo instagram @escutaminhadorufjf e ser um grupo de apoio para portadoras da doença e suas famílias. O grupo é destinado, principalmente, às pacientes do Hospital Universitário da UFJF, mas todas as pessoas podem participar das atividades, como rodas de conversa com especialistas. Para acompanhar as ações do projeto, basta segui-los nas redes sociais. Na página, além das informações semanais sobre saúde e qualidade de vida, os pacientes podem tirar dúvidas com especialistas.

